
O Treino de Força como complemento à corrida pode beneficiar o atleta em vários aspetos – desde a melhoria do seu desempenho até à prevenção de lesões.
A corrida de longa distância (maratona, ultra-maratona, trails, etc.) tem sido amplamente estudada e discutida na literatura científica. A procura por melhores resultados torna essencial adquirir conhecimentos sobre anatomia, fisiologia, biomecânica e treino, a fim de maximizar o potencial funcional dos atletas.
No maratonista, diminuir o tempo necessário para completar uma distância de corrida é crucial. Consequentemente, há necessidade de entender os determinantes do desempenho de corrida. Vários determinantes fisiológicos foram identificados, que incluem um alto consumo máximo de oxigénio (VO2max), limiar de lactato e economia de corrida (EC).
A EC é definida como a demanda de energia necessária para sustentar uma determinada velocidade e distância. Portanto, uma maior EC está associada a uma menor taxa de consumo de O2 o que indica um melhor desempenho da corrida.
Além dos fatores fisiológicos, a evidência científica destaca a importância das características neuromusculares no desempenho da corrida de longa distância. Ou seja, características neuromusculares adequadas, como a força e a potência muscular, bem como a capacidade excêntrica, podem ser fundamentais para converter a capacidade cardiorrespiratória numa mecânica de corrida eficiente e, desta forma, melhorar o desempenho.
Em corredores de longas distâncias, o treino de força contribui para a melhoria das adaptações neuromusculares (ou seja, rigidez musculotendinosa, recrutamento e sincronização de unidades motoras, coordenação intra e intermuscular e inibição neural), resultando em benefícios na EC, VO2max e/ou função anaeróbica levando à otimização da performance desportiva.
O treino de força permite ainda potenciar a força máxima, aumenta a velocidade e a potência, além de reduzir o risco de lesões de overuse. O treino de endurance, por exemplo, leva a melhorias na funcionalidade e na morfologia das mitocôndrias permitindo um menor consumo de O2 para uma determinada velocidade submáxima. Promove assim melhorias na EC, uma menor perturbação na homeostase e uma utilização mais lenta do glicogénio muscular.
No entanto, o treino de força ainda é pouco comum entre corredores de longa distância, especialmente entre os amadores. Isso provavelmente ocorre devido à conexão errada com o desenvolvimento de hipertrofia muscular, que leva os corredores de longa distância a acreditarem erroneamente que as adaptações de força estão relacionadas com o aumento da massa corporal e muscular. Essa percepção incorreta pode potencialmente impactar negativamente os parâmetros fisiológicos relativos ao desempenho.
Concluindo, a inclusão do treino de força como parte do programa de treino pode ser uma estratégia benéfica para aprimorar o desempenho em eventos de resistência. Além disso, essa abordagem oferece uma maneira eficaz de diversificar o programa de treino desses atletas, que muitas vezes se concentram exclusivamente na corrida, aumentando o risco de sobrecarga sem benefícios funcionais.
Filipe Bastos, Fisioterapeuta
Bibliografia: