
A dor lombar tem um impacto enorme na nossa sociedade.
Basta dizer que cerca de 75% da população terá pelo menos um episódio de dor lombar ao longo da sua vida.
A dor lombar é a causa mais comum de incapacidade nos jovens adultos, sendo a lesão ocupacional mais frequente, o que acarreta um elevado impacto económico.
De acordo com a duração dos sintomas a dor lombar pode ser classificada: em aguda (início dos sintomas há menos de um mês), sub-aguda (1 a 3 meses) ou crónica (mais de 3 meses ou recorrente durante 6 meses).
Ao longo dos tempos foram sendo criadas na nossa sociedade uma série de medos, receios, incertezas e crenças acerca da dor lombar que importa esclarecer.
A dor lombar aguda tem normalmente uma evolução favorável e a maioria dos episódios resolvem-se em poucas semanas. Em 40% dos casos a pessoa recupera em uma semana; em 80% dos casos recupera em 3 semanas; 90% dos casos recupera em 6 semanas. Só em 7 a 10% dos casos os sintomas permanecem por mais de 6 meses e apenas 1 % dos casos requer intervenção cirúrgica.
A maioria dos casos de dor lombar aguda (cerca de 90 %) tem causa mecânica, como por exemplo, hérnia, osteoartrite, estenose do canal medular, escoliose, espondilolistese, espondilose. Na maioria das vezes a dor lombar aguda de origem mecânica é inespecífica e não se consegue atribuir a nenhuma destas condições.
Estes dados mostram que um episódio de dor lombar aguda não tem de ser visto como um bicho papão ou um motivo de exagerada preocupação já que a maioria dos casos recupera em poucas semanas.
Nestes casos de dor lombar as radiografias ou outros exames complementares devem ser feitos de forma muito criteriosa – existe critério para serem feitos se houver suspeita de compromissos/défices neurológicos (falta de força e de sensibilidade por exemplo) ou suspeita de doença sistémica.
Relativamente aos exames complementares importa ainda referir que pessoas com alterações severas nos exames podem ser completamente assintomáticas – não sentir qualquer dor. As alterações visíveis nas radiografias, frequentemente, não são responsáveis pelos sintomas. Após os 50 anos de idade cerca de ⅔ das pessoas normais apresentam alterações degenerativas nos exames e cerca de ⅔ das pessoas com evidência de degeneração do disco na radiografia são assintomáticos.
Estes dados ajudam a perceber que a dor é subjectiva e que depende de inúmeros fatores não se reduzindo a alterações estruturais. Hoje sabe-se que, por exemplo, que nas pessoas com dor lombar crónica os fatores psicossociais têm um papel muito importante na sua condição.
Outro dos conceitos erradamente assumidos é o de que se dói devemos ficar em repouso absoluto – de cama. Os estudos científicos não deixam hoje qualquer dúvida… Pessoas com dor lombar inespecífica devem manter-se ativas. O repouso absoluto é contraproducentes tanto em casos agudos como em casos crónicos e não favorece a recuperação.
Importa por último esclarecer que existem sinais de alerta aos quais devemos estar atentos e que caso estejam presentes carecem de avaliação clínica. Os sinais de alerta incluem perda de sensibilidade, envolvimento da bexiga e dos intestinos, perda assimétrica dos reflexos tendinosos, pulsação irregular, hipotensão ou instabilidade circulatória, que podem ser sinais de condições como o síndrome da cauda equina, abscesso epidural, entre outras.
André Viegas, Fisioterapeuta