
Um dia tem apenas 24 horas, menos 8 que passamos a dormir, menos 1 que passamos a preparar-nos para trabalhar, menos 1 que passamos a caminho do trabalho, menos 8 que passamos a trabalhar, menos 2 que passamos a preparar o jantar e a come-lo, menos 1 para arrumar a cozinha e orientar outros afazeres, menos 1 para banhos e pijama, menos 1 ou 2 para preparar trabalho para o dia seguinte… O dia tem 24 horas, mas não parece… afinal para onde vai o tempo? Será possível encontrar tempo para nós e para os nossos filhos no meio de tanta coisa para fazer?
“Vou pedir ao tempo que me dê mais tempo para olhar para ti.”
Mariza, O Tempo não pára.
É assim tão importante dedicar tempo aos filhos?
É fundamental.
As crianças aprendem com o que vêem, com o que experienciam, com o que sentem na pele, muito mais do que com aquilo que nos ouvem dizer. As crianças vivem num mundo concreto, palpável: “ele é meu amigo porque brinca comigo”, “ela gosta de mim porque me dá beijinhos”.
Nada dá mais certeza a uma criança de que é amada do que o tempo que os seus pais lhe dedicam, interagindo com ela, ajudando-a a descobrir-se e ao mundo que a rodeia.
“Vem, pai, mostra-me o livro dos mapas. Tu sentas-te aqui e eu sento-me ao teu colo.”
E enquanto o pai vai apontando os países e as capitais, ele vai sorrindo orgulhoso e aconchegando-se nos seus braços. Não vai saber repetir de cor qual a capital da Argentina, mas sabe que aquele livro é um portal que lhe dá acesso àquele momento de ternura e proximidade. E é tão fácil! É só dizer aquelas palavrinhas mágicas!»
Quando dedicamos tempo aos filhos fazemo-los sentir amados, importantes e seguros. Ao mesmo tempo desenvolvemos neles várias competências cognitivas, desde a linguagem, ao raciocínio, à capacidade de atenção e concentração, à memória. Desenvolvemos o prazer de estar juntos, de nos sentirmos profundamente vinculados a alguém. Para as crianças são estes os momentos em que os seus pequenos cérebros estão mais recetivos a qualquer aprendizagem—momentos emocionalmente significativos; para nós pais, são uma oportunidade de descobrir o quanto já cresceram, o quanto já evoluíram e de nos recordarmos de como é tão bom tê-los junto a nós. Não tarda nada vão estar crescidos e a dizer-nos que não percebemos nada!
“Eu sei que o tempo não pára/O tempo é coisa rara/E a gente só repara/Quando ele já passou.”
É na infância que se lançam todas as sementes. É aqui e agora que os filhos saberão que têm um porto de abrigo onde voltar em qualquer tempo e em qualquer situação: nas dificuldades com os problemas de matemática; com o menino que fez troça deles; nas duras lutas internas da adolescência; nas difíceis decisões entre ser fiéis a si próprios ou seguir o grupo; quando forem adultos; quando forem pais…
É aqui e agora que vão aprender se são suficientemente bons para ser amados; se colocarão a ênfase no esforço e na persistência ou nos resultados; o que significam as dificuldades e os erros e o que fazer quando estes acontecem.
Tempo especial
O comportamento das crianças alimenta-se de atenção, podendo ser positiva ou negativa, porque é através da atenção que as crianças satisfazem a necessidade emocional básica de conexão com os seus pais. A atenção dada a um comportamento aumenta a probabilidade da ocorrência do mesmo, pois é um motor de conexão.
No dia a dia, a maior parte da atenção que dedicamos às crianças é geralmente atenção negativa (ralhetes, castigos, punições, chamadas de atenção, avisos…) e frequentemente esquecemo-nos de praticar a atenção positiva—aquela que é dada aos bons comportamentos ou à criança em si.
Isto faz com que as crianças aprendam que é mais fácil obter a atenção dos pais portando-se mal.
Quando dedicamos tempo aos nossos filhos, nos sentamos com eles, olhando-os nos olhos, escutando as suas ideias e brincando ao seu jeito, estamos a praticar uma forma muito poderosa de atenção positiva—o Tempo Especial! Neste tempo não há telemóveis, nem outras tarefas… a única tarefa é brincar e rir com os nossos filhos, à sua maneira, descrevendo e apreciando as suas ideias originais, conversando com eles. E não são precisas horas, por vezes 15 minutos são suficientes.
É difícil encontrar este tempo no meio das mil coisas que há para fazer em casa? Poderá parecer o caso! Mas façamos contas… somemos quantos minutos passamos a corrigi-los, a ralhar ou a conter uma birra… São mais de 15? Bem mais, certamente. O Tempo Especial é um investimento. Os 15 minutos investidos na melhoria da relação e no fortalecimento dos vínculos vão poupar em tempo de birras, irritação e mau humor, simplesmente porque a criança não vai necessitar de recorrer a esses mecanismos para “ser vista”.
Espremer o Tempo!
E se nos parecer que não temos nem 15 minutos?Se a vida te der limões… faz uma limonada… e um chá de limão, um bolo, uma compota e usa-o para desengordurar a loiça!
Se a vida te dá 15 minutos de carro até à escola do teu filho, então…
No banho…
Deixa 10-15 minutos para um banho divertido. Em vez de correr e apressar, deixa a criança relaxar na água do banho e brincar um pouco, é uma excelente oportunidade para se passar tempo especial e conversar com ela.
Durante a preparação das refeições…
Dá-lhe um tacho pequeno e vai-lhe dando as cascas e outros “ingredientes” para que a criança esteja ao teu lado. Partilhar uma atividade é uma excelente forma de juntar o útil ao agradável.
Em regra, as crianças gostam de ajudar, por isso se as incumbires de pequenas tarefas, será
simultaneamente útil e estarão a criar laços: pede-lhe que leve algumas peças de roupa para as divisões corretas da casa, que ajude a estender algumas peças de roupa fáceis, que vá dar um recado ao pai ou à mãe (podem ser recados inventados, como dar um beijinho ou dizer que o pai tem os pés no chão!) são boas formas de passar tempo com a criança ao mesmo tempo que se promovem competências e se reforça a sua auto-estima.
Na ida ao supermercado…
Dá-lhe a cheirar os sabonetes, pergunta a sua preferência; mostra-lhe as frutas, permite-lhe sentir as diferentes texturas, deixa-a tocar nos ananases e nos kiwis; ensina-lhe como ver quais são os melhores tomates e as melhores alfaces…
Resumindo… Faz tempo com o tempo que tens!
“De agora em diante, não serei distante, eu vou estar aqui.”
Ana Raquel Roseiro, Psicóloga