
A entorse da Tibiotársica, é uma lesão comum, que pode levar ao estiramento, rotura parcial ou total de um ou mais ligamentos do complexo articular do tornozelo.
Trata-se de uma lesão músculo-esquelética com elevada prevalência que afeta a população em geral e atletas (Basquetebol, voleibol, futebol, entre outros).
Aproximadamente 60% de todas as entorses da Tibiotársica em atletas surgem como resultado de um trauma direto. A taxa geral de re-entorse em desportos de contato varia entre 4 e 29%.
O mecanismo de lesão mais comum é a flexão plantar com inversão, ou seja, “ponta do pé” para baixo e para dentro (Imagem 1). Assim, o ligamento talofibular (ligamento anterior) é o mais suscetível de lesão dado que, fica sob stress máximo e tem menor tolerância à carga durante este mecanismo.

A função dos ligamentos da Tibiotársica é proporcionar à articulação a estabilidade postural necessária. Contudo, a reduzida estabilidade articular durante a flexão plantar pode explicar o porquê da maioria das lesões ligamentares serem observadas neste movimento.
O fator de risco mais crítico para uma entorse da Tabiotársica é no passado já ter sofrido uma entorse.
Outros fatores de risco que podem levar a lesão são:
Os sintomas variam consoante a gravidade da lesão e as caraterísticas de cada pessoa (ex. recidivas).
De forma geral, logo após o trauma a pessoa sente dor no pé que pode variar de ligeira a incapacitante. Existe um aumento de sensibilidade na região e a dor aumenta com os movimentos podendo, em lesões mais severas, limitar a capacidade em realizar marcha. Além destas caraterísticas a articulação pode ficar com edema, equimose/hematoma e derrame articular. Pode ser ainda ouvido um estalido acompanhado com uma sensação de “rasgar”.
De salientar que, mais de 40% dos pacientes que sofrem uma entorse desenvolvem sintomas persistentes e recorrentes. A instabilidade crónica da Tibiotársica é caracterizada por dor persistente, edema, sensação de instabilidade e re-entorses que continuam pelo menos 12 meses após a lesão inicial. Alterações na proprioceção, desequilíbrios musculares e défices de controlo neuromuscular podem contribuir para o desenvolvimento de instabilidade crónica da TT.
A severidade das entorses pode ser classificada em três graus:
No caso de suspeita de entorse da Tibiotársica, é fundamental reunir o máximo de informação através da história clínica da pessoa (problemas de saúde, lesões anteriores, desporto, mecanismo de lesão, entre outros) e do exame clínico.
Deve-se começar o exame físico por descartar a possível presença de fraturas ósseas. De seguida é necessário realizar um conjunto de testes e procedimentos para confirmar a presença de entorse. Em alguns casos, poderá ser necessário o recurso a exames complementares de diagnóstico como é o caso da radiografia ou da ecografia.
O tratamento conservador é essencial para uma recuperação bem-sucedida. Inicialmente, a reabilitação foca-se na redução do processo inflamatório (reduzir a dor, edema, hematoma), na restauração da força e das amplitudes de movimento. Além disto, deve-se promover a normalização da marcha e a introdução de movimento o mais precoce possível no sentido de possibilitar o retorno às atividades de vida diária.
Assim, na fase aguda a terapia manual pode ser uma boa estratégia para reverter o processo inflamatório e facilitar a recuperação funcional. Adicionalmente e assim que possível e tolerado após a lesão, o treino neuromuscular e propriocetivo deve ser incorporado uma vez que reduz o risco de nova lesão e de desenvolver instabilidade crónica. A integração do exercício permite ainda promover a perceção articular, a capacidade reativa muscular e ganhos funcionais.
A restauração da mobilidade, da força, do controlo proprioceptivo e da coordenação durante a realização de um programa de exercícios específico para uma determinada modalidade pode ajudar os atletas a regressarem à prática desportiva com menor risco de lesão.
O paciente deve ser instruído a realizar exercícios em casa visto que, além de ser efetivo, a própria pessoa é um elemento ativo no seu processo de reabilitação.
A cirurgia fica reservada para casos que não respondem de forma positiva ao tratamento conservador, lesões mais extensas ou para atletas com entorse Grau 3.
A gestão do atleta para o retorno à prática desportiva é um processo multifatorial e interdisciplinar. Deste modo é fundamental realizar uma avaliação individualizada e ter em consideração o perfil do atleta, tipo/caraterísticas da lesão e a modalidade desportiva.
Os atletas devem ser submetidos a uma bateria de testes específica para regressar à competição de forma segura.
Após alta clínica é crucial realizar um plano de prevenção de lesões (FIFA 11+) no sentido de tentar evitar uma nova lesão no futuro.
Filipe Bastos, Fisioterapeuta
Bibliografia