Lesão do Ligamento Cruzado Anterior (LCA)

O ligamento cruzado anterior (LCA) é uma estrutura interna do joelho que tem a função de estabilizar a articulação, sobretudo em movimentos de torção, acelerações e desacelerações.

70% a 90% das lesões deste ligamento, ocorrem em situações sem trauma direto contra o joelho. Normalmente a Lesão do LCA associa-se sempre a lesões de outras estruturas, como por exemplo outros ligamentos, meniscos e cartilagem.

O que é?

A rotura do ligamento cruzado anterior acontece habitualmente pela torção do joelho durante uma atividade desportiva (em que o joelho se desvia para dentro), envolvendo aceleração ou desaceleração repentina. Normalmente estas lesões poderão vir associadas com um “estalido” no momento da lesão e/ou um sangramento articular dentro de 2h após a lesão.

Causas

Os principais fatores de risco para a ocorrência da lesão do ligamento cruzado anterior, estão muitas vezes relacionados com:

  • Calçado desportivo inadequado para o piso de treino;
  • Fraqueza e desequilíbrios musculares;
  • Dificuldade em realizar o movimento coordenado (mau alinhamento do corpo para realizar gestos técnicos, como saltos, aterragens, corrida);
  • Fadiga muscular, sendo que uma musculatura fatigada não responde bem aos comandos do atleta.

Existem ainda outras características individuais que favorecem a lesão do LCA, como alterações hormonais, a própria anatomia, idade e somatório de lesões antigas. Outro facto curioso é que a lesão do LCA é muito mais prevalente em mulheres do que nos homens, mesmo quando competem nos mesmos desportos.

Sintomas

Dor intensa e inchaço com dificuldade em andar sem mancar, apoiar o pé no chão, e movimentar o joelho. Estes sintomas normalmente melhoram nas primeiras semanas, mas a instabilidade do joelho pela falta do ligamento permanece, dando a sensação que o joelho “está a sair do sítio”.

Diagnóstico

Para fazer um diagnóstico de uma rotura do ligamento cruzado anterior, é preciso combinar informações do histórico do paciente, exame clínico com a aplicação de testes ortopédicos apropriados e, se necessário, complementar com exames (tal como a ressonância magnética).

Tratamento

Apesar de, na maioria das vezes, a lesão do ligamento cruzado anterior ser de tratamento cirúrgico, em algumas situações não há necessidade de cirurgia:

  • Pacientes mais velhos, sem atividade desportiva;
  • Lesões parciais (só de algumas fibras do ligamento) sem instabilidade;
  • Lesões por desgaste do LCA, associadas a artrose do joelho;

Já em casos de atletas, pessoas ativas que continuam com sintomas e com sensação de joelho instável e/ou pessoas com outras lesões associadas à rotura do LCA, são normalmente propostas para cirurgia.

É importante salientar o papel da Fisioterapia tanto em casos que não necessitaram de cirurgia, como em casos cirúrgicos.

 Em casos cirúrgicos, a fisioterapia deverá começar no préoperatório, de forma a diminuir a inflamação no joelho e restabelecer a força muscular. Pós cirurgia, o programa de reabilitação deverá ser personalizado e respeitar alguns objetivos:

  1. Aumentar a amplitude de Movimento – após a cirurgia, deverá manter-se uma boa amplitude no joelho para evitar aumento de pressões na cartilagem;
  2. Suporte do Peso Corporal – É importante adaptar o joelho ao peso do paciente, com aumento gradual da carga aplicada, de modo a evitar sobrecargas;
  3. Fortalecimento Muscular – é importante recorrer a protocolos de exercícios para aumentar a força e controlo muscular da perna;
  4. Treino Neuromuscular / Proprioceptivo – como existem alterações na perna após a cirurgia, o paciente perde a noção do seu próprio corpo. É importante realizar um programa de exercício que promovam o equilíbrio.

A reabilitação pós-cirúrgica do ligamento cruzado anterior é um processo normalmente demorado e exigente. Tradicionalmente acreditou-se que seis meses seriam suficientes para reabilitar o atleta, mas hoje é mais claro que os seis meses poderão não ser suficientes. Atualmente, já se sabe que o tempo mínimo para retornar à prática desportiva com segurança será de 9 a 12 meses.

Mas preste atenção: o tempo pós cirurgia não é o único fator a ter em conta para voltar a fazer desporto.

O atleta tem de passar por uma bateria de testes e, em consenso com o seu médico e fisioterapeuta, decidir o seu retorno.

 

Carina Martins, Fisioterapeuta

Bibliografia

  1. Filbay SR, Grindem H. Evidence-based recommendations for the management of anterior cruciate ligament (ACL) rupture. Best Pract Res Clin Rheumatol [Internet]. 2019;33(1):33–47. Available from: https://doi.org/10.1016/j.berh.2019.01.018
  2. Mahapatra P, Horriat S, Anand BS. Anterior cruciate ligament repair – past, present and future. J Exp Orthop. 2018;5(1).
  3. Figueira VLG, Silva Júnior JA da. A importância da fisioterapia imediata nos pós-operatório do ligamento cruzado anterior. Res Soc Dev. 2022;11(1):e52111125450.
  4. Parsons JL, Coen SE, Bekker S. Anterior cruciate ligament injury: Towards a gendered environmental approach. Br J Sports Med. 2021;55(17):984–90.
  5. Daggett MC, Witte KA, Cabarkapa D, Cabarkapa D V., Fry AC. Evidence-Based Data Models for Return-to-Play Criteria after Anterior Cruciate Ligament Reconstruction. Healthcare. 2022;10(5):929.
  6. Lindanger L, Strand T, Mølster AO, Solheim E, Inderhaug E. Return to Play and Long-term Participation in Pivoting Sports After Anterior Cruciate Ligament Reconstruction. Am J Sports Med. 2019;47(14):3339–46.