O seu filho/a faz xixi na cama?

A enurese, na criança, é definida como sendo uma disfunção caracterizada por perda involuntária de urina, de dia ou de noite, anómala em relação à idade da criança e que não é consequência de falta de controlo da bexiga, de doença neurológica, ataque epilético ou

qualquer alteração estrutural do trato urinário. Pode estar presente desde sempre ou relacionar-se com alterações emocionais ou comportamentais.

Falamos de enurese noturna quando existem perdas involuntárias de urina durante o sono

de uma criança com 5 ou mais anos de idade.

Aos 2 anos, a criança começa a adquirir o controle dos esfíncteres durante o dia e por norma aos 3 anos, consolida essa continência, pelo menos no período diurno. Por norma, um ano depois conquista a continência noturna.

Após os 4/5 anos, as perdas noturnas de urina passam a ser um motivo de atenção.

 

A enurese noturna classifica-se em:

  • Primária – se a criança nunca adquiriu o controlo da urina durante a noite;
  • Secundária – quando se verificou um período de, pelo menos, 6 meses de continência e só depois surgiu novamente a incontinência.

A enurese primária verifica-se em cerca de 9% dos rapazes com 7 anos de idade e, em cerca de 6% das raparigas da mesma idade.

Estudos mostram que a maioria dos adultos que vivenciou a sua própria enurese durante a infância, refere ter sido uma experiência traumática e com repercussões importantes nas suas vidas.

Tanto a enurese noturna como a diurna são sintomas – não diagnósticos – e necessitam de

considerações sobre a causa de base.

Disfunções orgânicas estão na base de 30% dos casos. Os restantes 70% são, na maioria das vezes, de etiologia não esclarecida, mas admite-se que decorram de uma combinação

de vários de fatores, incluindo:

  • Maturação tardia;
  • Pequena capacidade funcional da bexiga (a bexiga contrai antes de estar totalmente cheia);
  • Volume urinário noturno aumentado;
  • Dificuldade de despertar do sono;
  • História familiar (se um dos pais tem enurese noturna, a possibilidade de o filho ter também é de 30%; a probabilidade aumenta para 70% se ambos os pais forem afetados);
  • Alterações do foro emocional.

 

Uma avaliação das questões emocionais podem ajudar a rastrear e identificar situações que possam ser responsáveis pela perturbação do equilíbrio emocional e psicológico da criança (por exemplo o nascimento de um irmão, um divórcio dos pais, a morte de um familiar, uma situação de abuso sexual, dificuldades relacionais na escola, etc.) e como tal, estarem na origem da enurese.

 

As crianças com enurese desenvolvem, frequentemente:

  • Sentimentos de vergonha;
  • Sintomas de ansiedade;
  • Baixa autoestima;
  • Dificuldades de socialização;
  • Perda de qualidade de vida e de rendimento escolar;
  • Maior risco de abuso físico e emocional.

Nos pais encontram-se frequentemente problemas de:

  • Ansiedade;
  • Agressividade;
  • Perturbações do sono;
  • Aumento da tensão emocional e consequentemente conflitos conjugais/ familiares;
  • Frustração.

É fundamental ter sempre presente que a criança nunca deve ser culpabilizada por ter enurese noturna, dado que a perda de urina ocorre sem que esta possa ter um controlo voluntário e consciente da situação.

A enurese deve merecer atenção, ser avaliada e tratada cuidadosamente, uma vez que pode provocar efeitos negativos significativos na vida da criança afetada e da sua família.

 

De nada adianta castigar, pelo contrário. Repreender piora o quadro emocional da criança e abala ainda mais a sua autoestima quando o importante é ganhar a confiança da criança, motivá-la a fazer o tratamento e a superar a disfunção.

 

Vera Carnapete, Psicóloga