Redes sociais e adolescentes: riscos e sinais de alerta

As redes sociais fazem parte do quotidiano de quase todos os adolescentes. São espaços de criatividade, ligação, expressão e pertença — elementos essenciais nesta fase de construção da identidade. No entanto, quando começam a ocupar um lugar central no bem-estar emocional dos mais jovens, podem surgir desafios que merecem atenção.

Este artigo explica o que distingue um uso frequente de um uso prejudicial das redes sociais, apresenta sinais de alerta e oferece estratégias práticas para pais/cuidadores e para os próprios adolescentes.

Uso frequente vs uso prejudicial das redes sociais

Um uso frequente das redes sociais não é o mesmo que um “uso prejudicial”, ainda que exista uma linha muito ténue a separar estes dois conceitos.

Designamos que existe um “uso prejudicial”, quando o padrão de utilização das redes sociais gera consequências negativas, significativas e persistentes, na vida do adolescente, entre as quais sobressai a dificuldade em controlar essa mesma utilização, mesmo havendo consequências, tais como: alterações no rendimento académico, dificuldades ao nível das relações interpessoais, mudanças no padrão de sono, alterações no estado emocional, entre outras.

Um “uso frequente” remete-nos para um número elevado de horas de exposição do/a adolescente perante as redes sociais, mas com uma procura intencional e controlada das mesmas; porém mantendo: o bom funcionamento académico, uma relação saudável com as outras pessoas (família, colegas, amigos/as, professores/as, …), um padrão normal de sono, motivação e prazer nas atividades extracurriculares, etc.

Porque os adolescentes são mais vulneráveis ao impacto das redes sociais?

No período da adolescência, o cérebro do ser humano – mais concretamente, o seu córtex pré-frontal – encontra-se em desenvolvimento. Sendo esta a área cerebral responsável pelo autocontrolo, pela tomada de decisão, pela regulação emocional e pela organização, é expectável que os/as mais jovens tenham maior dificuldade em avaliar potenciais riscos (negativos e perigosos), já que as vantagens que encontram, a nível social, superam as possíveis consequências de uma qualquer decisão. Assim, entende-se que as necessidades de validação e de aprovação social, nesta etapa, assumem um papel de destaque na vida dos/as adolescentes que, naturalmente, pretendem alcançar um sentimento de pertença e de identificação, subvalorizando os riscos que poderão estar a correr (e.g., “preciso de me sentir parte de algo, sentir-me apreciado/a”). É, desse modo, esperado que o sistema de recompensa – que reage a estímulos, como notificações, likes, novidades constantes, … – esteja extremamente ativo nestas idades, sendo esse, também, um forte potenciador de vulnerabilidade para os/as adolescentes.  

Por outro lado, considerando que esta é uma etapa de preparação para os futuros papéis sociais (de parceiro/a, profissional, pai/mãe, amigo/a, …), essa sua maior facilidade em arriscar poderá ser um fator positivo e protetor, permitindo-lhes criar a sua própria identidade e encontrar o seu grupo de referência, já que se mostrarão mais disponíveis para dar o passo de conversar com um/a novo/a colega, experimentar uma atividade nova, juntar-se a um clube/grupo, etc.

Nesse sentido, as redes sociais podem ser vistas como positivas e até protetoras, trazendo fortes benefícios, para os/as adolescentes, ao nível do desenvolvimento da sua identidade e das suas capacidades sociais. No entanto, quando utilizadas de forma descontrolada e desequilibrada, poderão impactar, diretamente e mais negativamente, a forma como estes/as lidam com as suas emoções, considerando o facto de serem fontes de comparações constantes, feedbacks imediatos, estímulos rápidos e um grande “medo de estar a perder algo” (FOMO).

Fatores positivos das redes sociais para adolescentes

  • Permitem desenvolver a criatividade (através da arte, da música, da escrita, da imagem/vídeo, …);
  • Potenciam a criação de um sentimento de pertença e de identidade, sobretudo para os/as mais jovens com pouco apoio/auxílio offline (g., familiar, escolar, …);
  • Facilitam o acesso a grupos de apoio emocional (e/ou de partilha de experiências);
  • Ajudam a desenvolver competências sociais e digitais.

Fatores negativos das redes sociais para adolescentes

  • Aumentam a exposição a comparações sociais (g., sucesso escolar/profissional, “vidas perfeitas”, corpos idealizados, relações “encantadas”, …);
  • Potenciam a hipervigilância social, i.e., a necessidade de monitorizar tudo o que as outras pessoas fazem, escrevem, partilham, …;
  • Reforçam a necessidade de aprovação social (g., likes, comentários, partilhas);
  • Intensificam o “medo de perder algo/ficar de fora” (FOMO) e, consequentemente, a ansiedade;
  • Potenciam a exposição a situações de ciberbullying, como as críticas, as exclusões ou a rejeição (g., perder seguidores, ser bloqueado/a, …);
  • Facilitam a exposição a conteúdos tóxicos e prejudiciais, disfarçados de humor, lifestyle, autocuidado, …

Sinais de alerta: quando as redes sociais estão a afetar o bem-estar emocional

  • Maior irritabilidade e impulsividade, demonstrando comportamentos agressivos;
  • Mudanças de humor acentuadas (“tanto está muito bem como fica muito mal”);
  • Tristeza, apatia, cansaço e desmotivação profundos;
  • Redução exacerbada do rendimento escolar;
  • Dificuldades de concentração e de foco;
  • Muita ativação e reatividade, quando tem de desligar-se do aparelho/telemóvel;
  • Perda de interesse em atividades que, anteriormente, apreciava e sentia prazer;
  • Mudanças no padrão de sono (g., dormir muito ou pouco);
  • Alterações na alimentação (g., evitar comer certos alimentos/refeições ou comer compulsivamente).

Estratégias práticas para promover um uso saudável das redes sociais

  • Para pais/mães ou cuidadores/as – como orientar sem invadir

    • Comunicar abertamente sobre o assunto: ir questionando e explorando o tema, sem recorrer a acusações ou julgamentos;
    • Estabelecer algumas regras colaborativas: acordar horários para a utilização do telemóvel, combinar um tempo limite de uso à noite, definir em que locais não poderá ser usado (g., sala de aula, mesa de jantar, reuniões, …);
    • Dar o exemplo: os/as mais jovens observam, diariamente, os comportamentos dos/as adultos/as, agindo em espelho;
    • Co-utilizar as redes sociais: partilhar vídeos, conversar sobre os conteúdos que acompanham, conhecer o que o/a adolescente vai seguindo/explorando;
    • Reforçar a realização de atividades offline: desporto, hobbies, tempo em família e/ou com amigos/as, …
    • Estimular a autonomia e não o controlo rígido (que, em contrapartida, gerará oposição e afastamento, por parte do/a adolescente).

     

    Para adolescentes – como usar sem perder o controlo

    • Fazer pausas conscientes: momentos de desconexão (agendados), ao longo do dia;
    • Definir um plano de “higiene digital”: desligar as notificações; evitar fazer scroll na cama, colocar o telemóvel longe do local de estudo (ou da mesa de convívio/refeição), …;
    • Seguir contas que potenciem o bem-estar: inspiração, sentido de humor saudável, educação, criatividade (mais artísticas), …
    • Deixar de seguir/silenciar conteúdos que gerem mal-estar (comparação, ansiedade, tristeza ou frustração).
    • Observar a forma como se sente, antes e depois da sua utilização: “Isto está a ajudar-me ou a piorar o meu dia?”, “Sinto-me melhor e mais leve, agora? Ou sinto culpa, tristeza e frustração?”
    • Criar momentos de foco, sem telemóvel: para estudar, para praticar um hobby, para relaxar, para nutrir relações, …

Quando procurar ajuda profissional?

A ajuda profissional deverá ser facultada, quando os sinais de alerta, acima explanados, surgirem, de forma persistente/demorada e intensa, prejudicando o normal funcionamento do/a adolescente. Uma ação rápida e certeira, por parte do/a adulto/a, pode determinar o sucesso do tratamento e, consequentemente, o futuro do/a adolescente.

O tratamento aconselhado é a intervenção psicológica e/ou psicofarmacológica (Consulta de Psicologia Clínica e/ou Pedopsiquiatria), que se focará, principalmente:

  • na redução dos sintomas;
  • na desconstrução de crenças e de padrões de comportamento;
  • no desenvolvimento de competências para lidar com as emoções;
  • na promoção de relações saudáveis e seguras;
  • no desenvolvimento de uma comunicação eficaz.

 

As redes sociais fazem (e continuarão a fazer) parte da vida dos/as mais jovens, pelo que o maior objetivo não deverá ser afastá-los desta realidade, mas sim ajudá-los a vivê-la com consciência, equilíbrio e leveza. Quando usados de forma saudável, estes podem ser espaços de aprendizagem, de criatividade, de amizade e de crescimento, potenciando a vivência de um maior bem-estar emocional.

Nesse sentido, tanto os/as pais/mães ou cuidadores/as, como os/as adolescentes têm, aqui, uma oportunidade de crescimento conjunta: transformar a relação com as redes sociais numa relação que apoia, que protege e que reforça, em vez de desestabilizar e de fragilizar. Com uma comunicação aberta e empática, limites colaborativos e autoconhecimento, este universo digital pode tornar-se um aliado – e não um inimigo – no desenvolvimento dos/as mais jovens.

 

Iara Espírito Santo, Psicóloga, OP 27238

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